A pergunta que não quer calar: e a escola?

A curiosidade sobre nosso estilo de vida é sempre muito comum em cada lugar por onde passamos, é natural que as pessoas queiram saber como é viajar (ou seria mais peregrinar) com duas crianças. A primeira pergunta que nos fazem é sempre a mesma: mas e a escola? A resposta para essa pergunta tem ficado cada vez mais clara em minha mente: a escola é o mundo! Claro, eu entendo a preocupação das pessoas e não foi sempre assim, Layla e Dimi já frequentaram a escola sim. Na primeira jornada, onde ficamos quatro meses viajando, a Layla tinha 7 anos e estava na 2ª série primária. Quando retornamos ela foi matriculada na 3ª série, fazendo um pequeno teste de avaliação e tirou nota máxima, porque na verdade o conteúdo que ela tinha perdido tinha sido muito pouco, enquanto que na estrada ela desenvolveu muitas capacidades rapidamente. O mesmo aconteceu na segunda viagem pelo Brasil, e na terceira, já na Europa, nós fizemos durante as férias escolares. 

Agora, com o Kids on the Road, que pretende passar todo o ano viajando e será baseado na aprendizagem autônoma, já me deparei com pessoas me questionando se isso não pode prejudicar o futuro deles, uma vez que não frequentarão a escola. Na visão da maioria das pessoas, quem não frequenta a escola, não tem futuro. Eu sempre tive um pouco de relutância em relação a esse conceito. Por que só tem futuro quem passa de 12 a 15 anos da vida dentro de uma instituição, decorando fórmulas, teorias e histórias que, na maioria dos casos, não serão mais utilizadas por 90% das pessoas?! Por que temos que estudar superficialmente de tudo um pouco, seja do que gostamos ou do que não gostamos, e com apenas 18 anos de idade sermos obrigados a escolher uma carreira, decidir o que estudar por mais 4 ou 5 anos, sem poder antes se aprofundar em algo que realmente nos interesse, experimentar novos conceitos ou ideias?

Por causa dessa inquietação que sempre me acompanhou (eu mesma fiz uma faculdade que eu não gostava, só porque era o mais indicado na época, por talvez ser a profissão do futuro), e depois de observar por um longo ano a Layla tendo que estudar horas a fio uma matéria que ela detesta, como a maioria das crianças que detestam matemática, para conseguir notas e passar de ano, foi que comecei a pesquisar mais sobre unschooling. Qual o sentido de uma menina de 11 anos, que quer ser atriz e chef gourmet, ter que decorar fórmulas complexas para calcular os ângulos de formas geométricas?! Ok, aprender a tabuada, a somar, diminuir, multiplicar e dividir, é realmente útil e necessário, saber os nomes das formas, o que é um triângulo, um quadrado etc, também, agora fórmulas, raios, medianas, mediatrizes, isso tudo não deveria fazer parte do currículo de quem quiser seguir alguma carreira que realmente vá utilizar estas informações? O mesmo se aplica para várias outras matérias do currículo tradicional das escolas como física, biologia, química (aaargh, sempre fui péssima aluna em química e nunca usei a tal da tabela periódica para nada em minha vida).

Quando me deparei com o termo unschooling, criado pelo escritor e educador John Holt, que é na sua essência, a aprendizagem autônoma, ou seja, uma aprendizagem natural, orgânica, eclética, motivada pelos interesses intrínsecos e dirigida pelas próprias crianças e jovens, a identificação foi imediata. Porque durante as nossas viagens, foi justamente o que vivenciamos: as crianças aprendem e absorvem tantas coisas diferentes, desenvolvem a curiosidade e suas capacidades de forma tão natural, que acabam por aprender muito mais do que dentro da escola em si, já que aprendem as coisas quando lhes faz sentido fazê-lo, e não por terem atingido determinada idade ou por serem obrigadas a fazê-lo por uma autoridade arbitrária. O Dimi mesmo, ainda vai fazer 5 anos e é capaz de ler todas as letras e números, já está aprendendo as sílabas e consegue escrever quase todas as letras, enquanto na escola ele só seria alfabetizado a partir dos 6 anos de idade. A Layla, ao invés de obter dores de cabeça de tanto tentar decorar as fórmulas, agora estuda técnicas de artesanato e expressão corporal, deixando-a muito mais feliz e bem humorada. Nada mais é do que a forma como aprendemos antes de irmos para a escola e quando saímos dela e entramos no mundo do trabalho, aprendemos fazendo, vivendo.

Na verdade, me surpreendi com a dimensão e quantidade de pais que praticam esta metodologia de ensino, pais dos mais variados backgrounds, de todo o tipo de profissões, níveis de rendimento e educação. Há realmente um grande movimento pelo unschooling, sendo o método mais popular do ensino doméstico no Reino Unido, inclusive sendo encorajado pela associação nacional do ensino doméstico Education Otherwise. Há também um grande movimento nos Estados Unidos, apoiado pela revista Crescer Sem Escola, de John Holt. É algo bem mais comum do que nós brasileiros estamos acostumados.

Algumas opiniões contrárias ao unschooling, defendem que as crianças ao frequentarem a escola, além do aprendizado das matérias, ganham com a convivência social, aprendendo a viver em sociedade e desenvolvendo as capacidades de se relacionarem com outras crianças. Sobre este ponto de vista, eu observei também na experiência com meus filhos, que isso é muito relativo. Layla sofreu todo tipo de preconceito na escola, vivia chegando em casa triste porque os amigos a haviam xingado disso ou daquilo, ou então reclamava da falta de educação dos colegas ao gritarem e falarem com falta de respeito aos professores durante as aulas. Claro que eles tem que aprender a conviver e acho bom que desde cedo aprendam com as desilusões que fazem parte da vida, porém será que é mesmo necessário impor um ambiente onde eles não se sentem confortáveis, onde o mal estar é predominante? Sobre a convivência com outras pessoas e a necessidade de relacionarem-se com outras crianças, isso acontece todo o tempo na estrada. Eles aprendem a se comunicar com crianças das mais variadas culturas e línguas, o que acaba por ser ainda mais interessante do que estar em um único circulo de amizades, que muitas vezes são mais prejudiciais do que positivas.

Enfim, eu não pretendo aqui convencer ninguém de que o unschooling é a solução para todas as crianças do mundo, apenas acredito que para os meus filhos é o melhor caminho. E para quem me perguntar sobre a escola, eu continuarei respondendo: o mundo é a melhor escola que existe!



2 comentários:

Dulce Morais disse...

Tendo eu sido globe trotter em criança e tendo eu também escolhido essa solução durante algum tempo para os meus filhos, só poderia juntar algo:
A riqueza!
A que eles ganham. Aquela que nunca poderá ser-lhes retirada por ninguém. :)
Boa aprendizagem aos "Kids on the Road"

Grazi Calazans disse...

Verdade Dulce, essa riqueza ninguém tira deles! Obrigada pela visita e comentário ;)

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